Entenda como a série “Severance” dialoga com as pinturas de Hopper 

Entenda como a série “Severance” dialoga com as pinturas de Hopper 

Escrito em 28/04/2022

Baseada na estética do distanciamento e melancolia, a série em muito se assemelha com a poética do icônico pintor realista-americano e traz práticas artísticas como método de sobrevivência
Severance
Cena de Severance | Crédito: Apple Tv

O que você acharia de uma empresa que propõe uma separação definitiva entre a vida pessoal e profissional? Deixar os problemas em casa, trabalhar focado, e voltar para casa sem trazer o estresse gerado. Pode parecer ótimo, não é? Para o personagem Mark, pareceu muito apropriado entrar na empresa Lumon, e dividir cirurgicamente suas cronologias perceptivas para esquecer sua falecida esposa por pelo menos 8h por dia. É isso mesmo, cada funcionário contratado se submete voluntariamente a uma cirurgia que bifurca as recepções neurais em dois caminhos: um para tudo relacionado à vida pessoal e outro para tudo relacionado à vida profissional, de forma que a memória é essencialmente espacial. 

Mas se seres humanos são sobretudo memórias, ao passar pela cirurgia, os funcionários passam a ter duas personalidades, uma chamada “interna” e outra “externa” à empresa, que podem inclusive ser diferentes uma da outra à medida que vivem coisas diferentes. Ou seja, para um interno, o dia começa com ele saindo do elevador e caminhando para a sua sala de trabalho, e termina da mesma forma, retornando ao elevador. Mas depois disso, ninguém sabe o que acontece, aliás ele não é mais ele mesmo, e sim o seu externo. Eles não sabem o que é um final de semana ou uma noite de sono, apenas podem sentir seus efeitos no próprio corpo, como uma maior sensação de relaxamento. Se estão com lágrimas nos olhos no elevador, talvez o seu externo tenha chegado à empresa chorando. Se seu externo se casar, tiver filhos, ou viajar, o seu interno nunca saberá. Ou ainda, sem ter a menor ideia você pode ter parceiros românticos paralelos, ou pelo menos paixões paralelas, visto que relacionamentos amorosos não são permitidos na empresa.

Por tudo isso, sem dúvida, as cenas nos elevadores são as mais intrigantes, quando é percebemos a mudança de personalidade por meio da transformação do semblante.

Apesar de não haver, até agora, nenhum pronunciamento oficial a respeito da semelhança estética da série com as pinturas de Edward Hopper, a ‘internet’ afirma que é quase inegável. O ambiente solitário e sombrio é introduzido desde a primeira cena, com uma paleta de cores frias, baseada em tons de azul, cinza e verde, somada ao estilo retrô-minimalista do escritório e com uma moça ruiva deitada sobre a mesa, usando um vestido liso. Todas essas características se assemelham em muito com o tratamento das pinturas de Hopper. 

Mas não param por aí, as cenas no escritório reforçam a poética do pintor: os enquadramentos – especialmente no início da série – possuem divisões visualmente claras entre os personagens ainda que estejam no mesmo espaço. As interações entre eles também são distantes em todos os sentidos. Hopper também costumava trabalhar com poucos personagens nas telas e frequentemente seus ambientes eram adultos, assim como na série, onde há pouquíssimas cenas com crianças ou bebês. 

Severance | Créditos: Apple Tv

Tensão, surrealismo e confusão

As pinturas de Hopper são um retrato estadunidense do pós-guerra, quando o país passava por rápidas mudanças e crescia cada vez mais, mas transbordavam os sentimentos de ansiedade e distanciamento. E então as dissemelhanças entre o trabalho do artista e a série se apresentam quando as pinturas permitem uma leitura esperançosa ou emanam certo conforto por meio das luzes amarelas ou solares, o que não tem espaço em Severance com toda aquela tensão, vigilância e caos. 

Não é possível identificar em que tempo se passa a série, já que o escritório tem tecnologias avançadas como o chip que rompe temporalidades dos funcionários e um elevador que identifica códigos e mensagens. Porém, por mais futurísticos que pareçam os conceitos, tudo é analógico. Quando acompanhamos os personagens saindo do escritório, a paleta de cores e a estética mudam para algo menos distópico. 

Também não se sabe exatamente no que consistem os trabalhos, especialmente do setor de ruptura, que passa horas em frente ao computador, olhando números até achar algum conjunto que chame sua atenção. Se o conjunto de números for assustador, vão para a pasta dos números assustadores. Se forem números engraçados, vão para a pasta dos engraçados. E o critério é totalmente e pessoal. 

Sensibilidade também não é o forte da empresa e principalmente dos que a gerenciam: “É importante que você tenha um olhar gentil. Você sabe ter um olhar gentil?” diz Milchick para Mark com a expressão mais fria que um ser-humano poderia ter após uma funcionária tentar suicídio. Na Lumon, a mesma pessoa que te tortura e pune por algum suposto mal-comportamento, é também quem promove dinâmicas em grupo, dança e traz recompensas tolas em prol da boa-convivência e prazer dos funcionários. 

Milchick e Mark dançando o “Jazz desafiador” em Severance

Toda essa confusão intencional dialoga com a vinheta da série, mas, ainda assim, nada a torna distante da nossa sociedade atual: uma sociedade pós-pandêmica, com mudanças nas percepções cronológicas, em estado de vigilância, avanços tecnológicos e retrocessos políticos, ao som de músicas do TikTok.

Arte, subjetividade e robotização –

Ms. Casey, uma das personagens mais robóticas, promove terapias de bem-estar no mínimo bizzaras, cheia de regras e tensões – apesar de ser o momento mais próximo de um funcionário experienciar sentimentos. Mas é ela quem convida Mark a “ como se sente” na argila.

Ms. Casey em Severance | Créditos: Apple Tv

Inclusive, é também a partir de uma cena na sala de espera da sessão de bem-estar que descobrimos que há obras de arte espalhadas pela empresa. Irving e Burt conversam sobre como essas provocam diferentes emoções neles, apesar de sabermos que elas eram manipuladoras e quase religiosas, afinal servem para narrar os contos lendários da vida de Kier – fundador da Lumon -, ou então para alimentar histórias absurdas que geram rivalidade entre setores. 

Irving e Burt de Severance | Créditos: Apple Tv

É por meio da do tal “Jazz desafiador” que Dylan perde a cabeça, ainda que fosse ele o mais interessado nas migalhas de recompensas. 

É por meio da também que o “externo” de Mark é incentivado pela primeira vez a falar mal da própria empresa que ele tanto defendia, cantando coisas como “F*ck you Lumon, I hate you Lumon”, e a partir da leitura de um , seu interno passa a se questionar sobre o sistema no qual ele está inserido.

Milchick em Severance | Créditos: Apple Tv

São as mais variadas formas de arte que geram mudanças reais por meio da subjetividade, sendo os únicos pontos que propiciam reflexão em contraponto com o trabalho estúpido de separar números do setor de ruptura. 

Isso sem falar sobre as pinturas pretas que o externo de Irving faz diariamente e que provavelmente têm alguma relação com as gosmas pretas com as quais seu interno alucinava. Mas isso, só vamos poder confirmar com a segunda temporada. 

Severance é uma série disponível na Apple Tv.