Leandro Erlich expõe “A tensão” no CCBB de São Paulo com curadoria de Marcello Dantas

Leandro Erlich expõe “A tensão” no CCBB de São Paulo com curadoria de Marcello Dantas

Escrito em 13/04/2022

Obras desenvolvidas ao longo de 30 anos do artista adquirem novos significados depois do surgimento das redes sociais e isolamento social
Leandro Erlich
Vista de Swimming pool, 1999 

Primeiro Belo Horizonte, depois Rio de Janeiro, e agora São Paulo. Por onde quer que passe, os trabalhos de Leandro Erlich, muito antes da itinerância pelos CCBB’s, sempre tomam conta das redes sociais com fotos divertidas e ditas ‘instagramáveis’. Mas o que era instagramável em 1999, por exemplo, quando Erlich fez a obra “Piscina” e nem sonhávamos com a tal rede social do momento que veio surgir apenas em 2010? 

A exposição A Tensão no Centro Cultural Banco do Brasil reúne obras dos últimos 30 anos do artista, mas de fato, todas adquiriram novos significados mais recentemente. Num mundo – e ainda mais num país – onde muitas fakenews são difundidas por meio de imagens descontextualizadas ou manipuladas, as obras de Erlich reforçam que não se pode acreditar em tudo o que se vê. 

Ainda que antecedam a existência do Instagram, podemos dizer que é quase impossível desassociar sua relação atual com a plataforma, seja considerando o artista um visionário ou julgando o movimento das redes sociais como uma apropriação daquilo que já existia e apenas foi ascendido: a curiosidade, a ilusão e o manipulado.

A exposição no centro cultural está tomada por diversas obras em formatos de janelas, que ora carregam o simbolismo da curiosidade sobre a vida alheia, e ora nos remetem sobre o estado de pandemia e isolamento social. Nessas primeiras, o que menos importa é o objeto em si ou aquilo que você vê através delas, mas sim sobre a sua postura e a quase inevitável atitude de se aproximar e querer bisbilhotar, afinal não existe obra de Leandro Erlich sem o espectador. A exemplo disso, a obra “The view” escancara uma atitude comumente feita por trás das cortinas da nossa casa quando vemos as janelas dos demais apartamentos do prédio vizinho. Quando você se aproxima da obra e observa as cenas criadas nos vídeos que simulam outras janelas, você assume que é curioso.

The View, 1997/2017 | Foto: Hasegawa Kenta

Além disso, todas as suas obras são mundialmente conhecidas por se tratarem de criações baseadas em “lugares-comuns”, recortes do cotidiano deslocadas e representadas de maneira a subverter sua condição de “normalidade”. É o caso, por exemplo, da obra Global Express (2011), vídeo que simula a janela de um trem em andamento exibindo a vista de diversas cidades com uma transição quase que imperceptível. Assim como no nosso mundo globalizado e hiperacelerado, onde num mesmo dia pegamos um trem em Paris pela manhã e outro em São Paulo a noite e às vezes nem nos damos conta do entorno. 

Global Express, 2011

Portanto, daí o convite à atenção que a sonoridade do título da exposição carrega, junto com um dos prováveis sentimentos de tensão que os visitantes sentirão diante das instalações do artista. Erlich ainda diz que “revelar o ‘truque’ é crucial. Essa revelação transforma o ‘engano’ em algo positivo”, por isso pode-se dizer ainda que essa exposição não tem obras interativas, visto que nada é manipulado pelas mãos do visitante, mas sem dúvidas é participativa e só tem significado a partir daí.

Data: 13 de abril a 20 de junho
Funcionamento: de quarta a segunda, das 09h às 19h
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Endereço: R. Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP
Ingresso: Grátis | Podem ser reservados pelo aplicativo ou site Eventim.