A Amazônia viva de Sebastião Salgado

A Amazônia viva de Sebastião Salgado

Escrito em 15/02/2022

Sesc Pompeia é a primeira parada da mostra ‘Amazônia’ no Brasil depois dela passar por Londres, Paris e Roma

Com Amazônia, Sebastião Salgado faz um apelo e um alerta: o bioma precisa receber a atenção que merece, assim como ele e aqueles que nele vivem precisam ser protegidos. “Minha esperança é que as pessoas não saiam daqui as mesmas que entraram”, afirmou num encontro com a imprensa na última terça, dia 14. 

Um dos maiores fotógrafos da atualidade, Salgado apresenta no Sesc Pompeia a partir de hoje, 15.2, seu projeto mais recente, destacando a Amazônia viva e pulsante, das comunidades e das florestas colossais. “Essa exposição foi concebida por dois brasileiros, eu e Lélia [sua esposa, curadora e cenógrafa da mostra] e representa a maior riqueza do Brasil e a maior concentração cultural e linguística do mundo, que são os povos indígenas da Amazônia”. 

Vista aérea do rio Jutaí, que por avançar em uma área extremamente plana, serpenteia traçando curvas pela floresta. Estado do Amazonas, 2017. Sebastião Salgado.
Vista aérea do rio Jutaí, que por avançar em uma área extremamente plana, serpenteia traçando curvas pela floresta. Estado do Amazonas, 2017. Sebastião Salgado.

Em defesa da Amazônia

Amazônia que sofre desde o século 15 com massacres e desmatamentos e encontra-se cada vez mais ameaçada pelo aumento das fazendas, ação de grileiros, garimpeiros e madeireiros. “A Amazônia vem sendo destruída pela sociedade do consumo, pela demanda de produtos como madeira, destruição das florestas para produção de soja e carne. E o responsável, hoje, pela ameaça das comunidades indígenas e do bioma é o executivo brasileiro, que levou à invasão de territórios indígenas e à desestabilização do modo de viver dos indígenas”, afirma. 

Mas, se, por um lado, há mais desmatamento, também há mais denúncia e mobilização, na opinião de Salgado. “Jamais as comunidades indígenas estiveram tão ameaçadas como agora, mas jamais estiveram tão organizadas. São elas que levam ao planeta inteiro a informação da ameaça e criou-se, mundialmente, uma corrente de proteção à Amazônia”.

Ele defende que o Brasil pode se tornar o grande país verde do planeta — o bioma amazônico representa 49,29% da superfície do Brasil. “Estamos no limiar de novas eleições e temos a grande esperança de que os candidatos tenham um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia”. 

Salgado chamou atenção ainda para os outros biomas que foram historicamente destruídos, como a Mata Atlântica: “Olha bem o que acontece com a cidade de São Paulo na maioria do tempo: é o desespero de faltar água, porque as grandes represas, que mantêm uma quantidade considerável de água, estão ameaçadas. Os reservatórios não enchem porque nós matamos as fontes de água destruindo as florestas”, diz. “Nós precisamos viver em torno da biodiversidade. Precisamos replantar as árvores. Precisamos dos outros animais”.

E ele não esconde a ligação afetiva que desenvolveu com os indígenas ao longo de suas expedições. “Foi um prazer imenso descobrir que quando eu cheguei na comunidade indígena, eu estava chegando na minha casa. (…) Quando encontrei os indígenas da Amazônia, eu estava encontrando a mim mesmo”. 

A exposição, depois de São Paulo, já tem datas no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro (19 de julho de 2022 a 29 de janeiro de 2023), e deve passar também por Belém e outras capitais. 

A exposição

A cenografia de Lélia Wanick Salgado foi pensada para proporcionar ao visitante uma espécie de imersão na floresta. Por mais impensável que seja experienciar uma visita à floresta amazônica dentro da estrutura brutalista do Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi, o resultado é impressionante e de tirar o fôlego. Graças também, é claro, à força das imagens de Salgado. 

Entre paisagens de “rios voadores” (rios aéreos carregados de vapor d’água que fluem por grande parte do continente sul-americano e carregam mais água do que o próprio rio Amazonas), montanhas, chuvas, florestas, e o Anavilhanas (maior arquipélago de água doce do mundo), aos poucos entramos em contato com dez comunidades indígenas fotografadas por ele: os Suruwahá, os Zo’é, os Awá-Guajá, os indígenas do Xingu, os Marubo, os Yawanawá, os Yanomami, os Macuxi, os Korubo e os Asháninka.

As paisagens, em sua maioria, pendem do teto. Os retratos estão nas paredes de dentro e de fora de estruturas que lembram ocas. Nelas, descobrimos homens, mulheres, idosos e crianças em suas atividades rotineiras: caçando, com seus animais de estimação (aves, macacos, bichos-preguiça), em rituais ou posando para as lentes do fotógrafo nos estúdios que ele montava no meio da floresta — lá, ele esperava pacientemente quem quisesse ser fotografado. 

Dentro das ocas, há também vídeos de lideranças indígenas falando, sobretudo, sobre o período difícil que enfrentam atualmente. Estes curtas documentários foram dirigidos pelo jornalista brasileiro Leão Serva.

Enquanto vemos a floresta e seus habitantes, ouvimos sons de água descendo do alto das montanhas, do farfalhar de árvores, do canto de pássaros e gritos de outros animais. A criação sonora feita especialmente para a exposição é assinada pelo francês Jean-Michel Jarre.

Todas as imagens são acompanhadas de legendas expandidas, que identificam todos os retratados, e cada núcleo temático é acompanhado de textos elucidativos sobre fenômenos naturais e sobre as comunidades. 

Os Suruwahá, por exemplo, acreditam na existência de três planos para onde vão os mortos. Aquele onde a vida é mais favorável reúne, justamente, os que morrem fortes e saudáveis. Os dois outros são o destino dos que foram picados por cobra e os que morrem na velhice. Entre os Suruwahá há alto nível de suicídios, provocados pela ingestão de timbó, substância tóxica usada para a pesca. Eles acreditam que a vida é simplesmente ceifada pelo espírito agressivo da planta. 

As primas Hahani, Tiniru e Ugunja no posto de saúde da SESAI, próximo ao igarapé Pretão (Jukihi). Ugunja morreu alguns meses após esta fotografia. Os Suruwahá têm alto índice de mortes, provocadas pela ingestão voluntária de timbó (derris ellíptica), substância altamente tóxica, usada para a pesca e a caça. Terra Indígena Suruwahá. Estado do Amazonas, 2017. Sebastião Salgado
As primas Hahani, Tiniru e Ugunja no posto de saúde da SESAI, próximo ao igarapé Pretão (Jukihi). Ugunja morreu alguns meses após esta fotografia. Os Suruwahá têm alto índice de mortes, provocadas pela ingestão voluntária de timbó (derris ellíptica), substância altamente tóxica, usada para a pesca e a caça. Terra Indígena Suruwahá. Estado do Amazonas, 2017. Sebastião Salgado.

São apresentadas ainda duas projeções: uma com paisagens em diálogo com Erosão – Origem do Rio Amazonas, de Heitor Villa-Lobos, a outra, com retratos, musicada por Rodolfo Stroeter.

Sebastião calcula que tenha feito cerca de 48 viagens à Amazônia nos seus últimos 10 anos de trabalho. 

Desdobramentos

O projeto se desdobra também em outras ações. O making-of da exposição poderá ser visto a partir de 8 de março no Itaú Cultural em Amazônia: o processo de criação de Sebastião Salgado. São fotografias feitas por Lélia, Leão Serva e Everton Ballardin que revelam os bastidores das andanças de Salgado pelo universo amazônico, selecionando imagens ou orientando a montagem da exposição.

As fotos de Salgado serão reproduzidas ainda em grande escala num concerto na Sala São Paulo acompanhadas da sinfonia Floresta Amazônica, de Villa-Lobos. A interpretação será feita por músicos da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (OJESP) e a previsão é que ocorra em maio — foi adiado por conta da pandemia. Salgado conta que ouviu a sinfonia de Villa-Lobos pelo menos 1.000 vezes para selecionar quais obras entrariam em cada uma das sessões da composição em busca da combinação perfeita. 

O livro Amazônia, editado pela Taschen, já está à venda. 

O Instituto Terra é apresentado no final da exposição, mostrando o trabalho realizado pelo casal desde 1998. O projeto abrange o reflorestamento de uma área de cerca de 600 hectares de Mata Atlântica em Aimorés (MG), além do cultivo de milhões de mudas de árvores em extinção e capacitação de jovens ecologistas para um trabalho contínuo de proteção e conservação da biodiversidade da região.

A dica de Salgado é válida: esta é uma exposição que necessita de, no mínimo, 2h de atenção para ser aproveitada plenamente. 

Sebastião Salgado – Amazônia

Data: 15 de fevereiro a 10 de julho

Local: Sesc Pompeia

Endereço: rua Clélia, 93 – Pompeia 

Funcionamento: terça a sábado, das 10h às 21h; domingos e feriados, das 10h às 18h

Ingresso: grátis