50 exposições imperdíveis que acontecerão em São Paulo em 2022

50 exposições imperdíveis que acontecerão em São Paulo em 2022

Escrito em 31/01/2022

Depois de dois anos de incertezas, a programação artsy da cidade volta com tudo investindo na produção nacional que revisita a identidade brasileira
A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini
A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini

Tava com abstinência de vernissage, né minha filha? Então segura porque a temporada de maratona artsy de São Paulo IS ON! 2022 é o ano para estar e repensar o Brasil. No ano em que “comemoramos” o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, museus, galerias e artistas buscam revisitar a ideia de brasilidade que nascia ali e, talvez assim, tentar entender de formas mais amplas e justas…que país é esse!?

 Não pretendemos negar a importância e relevância do Grupo dos Cinco da Arte Moderna Brasileira  (Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade), mas serão muitas as exposições que virarão o modernismo brasileiro do avesso e tantas outras individuais de artistas que revisitam nossa cultura e história sob novas e necessárias perspectivas: Adriana Varejão, Luiz Zerbini, Ayrson Heráclito, Dalton Paula, Jonathas de Andrade e Sidney Amaral chegam acompanhados Abdias Nascimento e Rubem Valentim – artistas que já falavam sobre isso tudo, mas só ganharam a atenção do mercado nos últimos anos. 

Será também o ano de questionar a arte com “A” maiúsculo. De um lado temos curadores, diretores e galeristas empenhados em trazer a, antes subjugada, “arte popular” para o panteão da arte contemporânea, do outro temos a valorização da produção dos inocentes e dos loucos. Aos poucos os museus começam a ouvir as histórias dos povos originários. 2022 será marcado, ainda,  por pontuais exposições para nos lembrar que, em tempos difíceis de luta e resistência das populações indígenas, é importante ter em mente que qualquer independência só é possível se considerar a história e os direitos de quem efetivamente estava aqui muito antes da chegadas dos portugueses.

Entre os nomes internacionais, vale ressaltar a individual do japonês Daido Moriyama, no Instituto Moreira Salles; de Marcel Broodthaers, na Gomide & Co; e de Lynda Benglis, na Mendes Wood Dm. Pode vir quente que 2022 está fervendo!

Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante
Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante, na Almeida e Dale
'Pássaros', 1968, Samson Flexor. Galeria de Arte Frente por A4&Holofote l Cultura
Pássaros, de 1968, por Samson Flexor

JANEIRO

Quem deu o pontapé inicial foi o Sesc Pinheiros, com a ocupação “Estamos aqui” – uma exposição com 40 trabalhos de artistas e coletivos cujas carreiras são marcadas pela passagem por espaços e plataformas do circuito independente de arte. O MAM, que saiu na frente na corrida das comemorações e reflexões sobre o centenário da Semana de 22, seguirá propondo discussões sobre o assunto com a exposição Samson Flexor: além do moderno, aberta semana passada, e uma coletiva sobre o Grupo Ruptura, prevista para o segundo semestre. 

O tema será discutido por diferentes lentes e perspectivas ao longo do ano. A partir do dia 29 deste mês vale, ainda, conferir a coletiva Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante, na Galeria Almeida e Dale. Com curadoria de Iatã Cannabrava e José Antonio Navarrete, a exposição contará com trabalhos de 40 artistas para que o público visualize a relevância e potência do Foto cine clube bandeirante para a construção da fotografia e pensamento modernista. Para os curadores a produção dos membros do Foto Cine passou por muitas e instigantes transformações nos primeiros 40 anos e isso ajudou a levar a fotografia brasileira para um outro patamar.  “O Clube colocou a fotografia brasileira num plano reflexivo e, depois deles, ficou impossível fazer fotografia sem pensar fotografia”, refletem os curadores. “São eles que representam a expansão do espírito modernizador da semana de 22 e esta contribuição foi fundamental para a modernização da fotografia brasileira, colocando-a como um projeto coletivo artístico do Brasil para o mundo”.

Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil
Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil
Amadeo Luciano Lorenzato
Amadeo Luciano Lorenzato
Volpi Popular
Volpi Popular, no Masp

FEVEREIRO 

Era 13 de fevereiro de 1922 quando um grupo de criativos paulistas tomou o Teatro Municipal de São Paulo sob vaias e aplausos para começar o evento que marcaria para sempre a história da construção do modernismo brasileiro. O mês oficial da Semana de Arte Moderna já começa com o curador Raphael Fonseca abalando as estruturas da História da Arte. No dia 9 de fevereiro, ele abre Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil, no Sesc 24 de Maio, inaugurando o Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões , projeto do Sesc que busca revisar, por meio de uma série de exposições e publicações lançadas ao longo do ano, questões que envolvem centenário da Semana de Arte Moderna e do Bicentenário da Independência do Brasil. 

O título da exposição é inspirado por um estilo arquitetônico encontrado em fachadas de casas antigas de Belém. A justaposição de azulejos quebrados formando desenhos geométricos, angulados e coloridos, que lembram setas, bumerangues e raios são conhecidos como “raio-que-o-parta”. O modismo desta arquitetura não se restringiu às elites locais da década de 1950, sendo logo apropriado por outras camadas da sociedade que popularizaram as fachadas raio-que-o-parta pelos bairros daquela cidade, como forma de modernizar o que era considerado obsoleto nas artes. 

A ideia da coletiva, que reúne cerca 600 obras de 200 artistas, é fazer uma necessária revisão histórica da Semana de 22, expandindo o movimento moderno no tempo e espaço. Para isso, Raphael propôs uma curadoria coletiva composta por pesquisadores de cinco curadores de cidades diferentes do Brasil: Aldrin Figueiredo, do Belém do Pará; Clarissa Diniz, de Recife; Divino Sobral, de Goiana; Marcelo Campos, do Rio de Janeiro;e, Paula Ramos, de Porto Alegre.  “Ainda temos uma visão muito focada em São Paulo e Rio de Janeiro e não vemos como a Semana de 22 é um marco perverso – representa o modernismo do Brasil, mas foi mais foi um evento muito localizado. Os poucos artistas que não eram do sudeste [ pense em Vicente Monteiro de Rego e Cícero Dias] moraram aqui ou na Europa”, explica o curador-geral. A coletiva abraça produções do final do século 19 até os anos 1960, incluindo nomes excluídos, esquecidos ou reorganizados. Entre os destaques estão as pintoras Lídia Baís, Mestre Zumba, Maria do Santíssimo, Pagu, Agnaldo Manuel do Santos e Aurora Cursino dos Santos – uma prostutura que pintou sobre sua profissão e o direito das mulheres na década de 40. Vale conferir, ainda, os trajes de Lampião, Carmem Miranda, pai de santo Balbino de Xangô e do palhaço Piolin. 

Se a disputa entre popular e erudito está em jogo, esse mês merece atenção. Enquanto a Gomide & Co expõe, mais uma vez, a partir do dia 9 de fevereiro, pinturas de paisagem de Amadeo Luciano Lorenzato, o Masp investe em duas exposições imperdíveis. No dia 25 deste mês, o público poderá mergulhar no mundo de  dois modernistas que flertavam com referências populares ou vernaculares: Volpi e Abdias Nascimento. Depois de organizar a mostra Portinari popular, em 2016, e Tarsila popular, em 2019, o museu apresenta, este ano, Volpi Popular.  Assim como os primeiros, Alfredo Volpi é um artista central da arte brasileira do século 20 e sua pintura é caracterizada por um repertório único de experiências e influências que mesclam tradições modernas e populares, incluindo interesses como: o trabalho artesanal, as festas populares, os temas religiosos e as fachadas da arquitetura colonial e vernacular brasileira. Volpi chegou no Brasil ainda criança e logo começou a pintar as paisagens do entorno. Na década de 1950, começou a sintetizar suas composições, tornando sua figuração cada vez mais geometrizada, com padrões, formas e temas recorrentes – como suas famosas bandeirinhas, mastros, faixas, fachadas e ogivas – que desenvolveu até o final de sua carreira.

Abdias Nascimento, Okê Oxóssi, 1970
Okê Oxóssi, de 1970, de Abdias Nascimento,

No mesmo dia, o museu reúne cerca de 60 trabalhos em Abdias Nascimento: um artista panamefricano com o objetivo de enfatizar a contribuição do artista para a pintura moderna brasileira. O visitante terá a oportunidade de visualizar um potente repertório de ideias, cores e formas do movimento pan-africanista, além de compreender aspectos importantes do imaginário ladino-amefricano. Abdias, vale lembrar, fundou o Teatro Experimental do Negro, o TEN, uma das mais radicais experiência de dramaturgia do país, nos anos de 1940;, e idealizado o Museu de Arte Negra, na década de 1960, cujo acervo está, hoje, em diálogo com obras de Inhotim. 

Regina Silveira
Regina Silveira
Vostok, de Leticia Ramos
Vostok, de Leticia Ramos

Mas não só de museu viverá o mês de fevereiro. As galerias também estão preparando uma série de individuais que prometem tirar o seu fôlego antes mesmo do carnaval. A Luciana Brito vai abrir uma exposição com belíssimas tapeçarias de Regina Silveira – um must have. As diversas possibilidades de significação e representação da fauna brasileira há tempos permeiam a pesquisa de Regina Silveira. Para inaugurar a programação da galeria, ela idealizou as obras de Fauna Mix, um desdobramento dessa investigação, que inclui animais peçonhentos, insetos daninhos, peixes, mamíferos, pássaros brasileiros, numa alusão à aura de exotismo que envolve a fauna brasileira. 

Jorge Macchi
Jorge Macchi, na galeria Luisa Strina
Max Gómez Canle
Max Gómez Canle, na Casa Triângulo
Lucas Arruda
Lucas Arruda, no Instituto Tomie Ohtake
Daniel Dewar e Gregory Gicquel
Daniel Dewar e Gregory Gicquel, na Mendes Wood DM

A Mendes Wood DM irá apresentar novos trabalhos da mineira Letícia Ramos que vai apresentar, a partir do dia 26 de fevereiro, o filme Vostok na nova sala de vídeos da Pina. Com base em Bruxelas e Nova Iorque, a galeria não investe nos nomes internacionais: neste mês será possível ver, no galpão na Barra Funda, obras da chinesa Miranda Zhang, da dupla belga Daniel Dewar e Gregory Gicquel e do norte americano Matthew lutz-Kinoy. Enquanto a Galeria Luisa Strina revela uma exposição com novos trabalhos do argentino Jorge Macchi,  a Casa Triângulo abre mais uma individual do também argentino Max Gomez Canle. Last but not least, o Instituto Tomie Ohtake abre, no dia 19, uma individual de Lucas Arruda intitulada Lugar sem lugar. A exposição, organizada pela Fundação Iberê Camargo, abre com 70 pinturas selecionadas pelo artista e a curadora Lilian Tone. Já cansou? Vem que tem mais.  

Daido Moriyama
Daido Moriyama

MARÇO 

Março é um mês de poucos e (muito) bons. O Instituto Moreira Salles abre, no dia 26, uma individual de Daido Moriyama – fotógrafo que iniciou a carreira no Japão do pós-guerra e se tornou o ícone pop e mais influente da fotografia japonesa. Considerado o padrinho da fotografia de rua do Japão, ele foi influenciado por nomes como Andy Warhol, William Klein e Jack Kerouac e revolucionou a forma de olhar o mundo com suas imagens densas e granuladas. Esta será sua primeira grande retrospectiva do artista na América Latina, reunindo mais de 200 trabalhos e uma centena de publicações que devem revelar diferentes momentos de sua vasta e produtiva carreira: do interesse pela ocupação americana e pelo teatro experimental dos anos 1960 aos trabalhos radicais dos anos 1970, do período autorreflexivo nos anos 1980 e 1990, passando pela documentação incansável das cidades e a reinvenção de seu próprio arquivo.

Adriana Varejão
Adriana Varejão, na Pinacoteca

No mesmo dia, Adriana Varejão abre uma importante retrospectiva na Pinacoteca com cerca de  60 trabalhos de diferentes fases e períodos, ocupando sete salas e também o Octógono, espaço central do museu, onde estarão as obras recentes da série Ruínas.  A mostra panorâmica pretende percorrer toda a trajetória de Varejão, iniciada em meados dos anos 80, para que todos possam tomar conhecimento da potência de uma das artistas brasileiras de maior repercussão internacional. A organização expositiva pretende ressaltar como a sua obra tem se estruturado, ao longo das últimas três décadas, a partir de uma reflexão sobre a história colonial do Brasil, apontando também para uma reflexão continuada sobre a própria pintura, sua materialidade e sua expansão para além do plano bidimensional. Prepare o coração: será lindo e, ao mesmo tempo, um soco no estômago.  

Marcel Broodthaers
Marcel Broodthaers, na

Bosco Sodi

Leandro Erlich

A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini
Ayrson Heráclito
Rubem Valentim

André Griffo
Marina Simão
Lynda Benglis

Anna Maria Maiolino
Arthur Bispo do Rosário
Flavio de Carvalho

Incêndio no museu, de Thiago Rocha Pitta, em Histórias Brasileiras

Gargalheira ou quem falará por nós?, de Sidney Amaral

Dalton Paula. Zeferina,. 2018

 Joseca Yanomami

Lina Bo Bardi
Max Bill

Edward Hopper

Daniel Senise
Héctor Zamora, na Luciana Brito Galeria

ABC da cana, de Jonathas de Andrade

Modernidades fora de foco

Tomie Ohtake
Judith Lauand

Cinthia Marcelle