Otobong Nkanga, Hariel Revignet e Sonia Gomes abrem mostras em SP

Otobong Nkanga, Hariel Revignet e Sonia Gomes abrem mostras em SP

Escrito em 24/08/2021

De diferentes origens e gerações, as três artistas com individuais na Mendes Wood DM têm relação íntima com a matéria e a memória
Hariel Revignet
Hariel Revignet

Três artistas, três gerações, três origens – uma relação íntima com a matéria, o território, a memória e a ancestralidade. A galeria Mendes Wood DM se despede do espaço na Rua Consolação em grande estilo, ao reunir pequenas individuais de Hariel Havignet, Sonia Gomes e Otobong Nkanga – semana que vem a galeria abre um novo espaço na Barra Funda que será sua única sede em São Paulo a partir de outubro.

Com apenas 26 anos, Hariel Havignet é a melhor surpresa das exposições de despedida. Nascida em Goiânia , Hariel elaborou um trabalho autobiogeográfico com o qual busca ativar processos de curas em corpos cuja oficialidade histórica configurou como “minorizados”. Para tanto, ela busca criar contra-narrativas (e/ou outros discursos) que ofereçam à história a revisitação de ideias coloniais ocidentais. As protagonistas de AKEWANI, prece da terra são mães, tias, avós…a mulher negra ameríndia em travessia entre o Brasil e o Gabão ( aqui com suas subjetividades, mas representando um corpo negro coletivo.  “Se o desejo de narrar a própria história possibilita ao sujeito o direito de estabelecer suas próprias identidades e nomear sua própria realidade; então autodenominar-se estabelece uma autoconsciência que não pode mais ser moldada a partir do outro, exceto por si próprio. Sendo assim, a artista começa a traçar sua história a partir da construção da sua árvore genealógica. Vinda de uma linhagem matriarcal, são essas mulheres que cercam Hariel – seja no plano físico ou espiritual – que apontam suas origens africanas e indígenas e fundamentam as obras da artista”, ressalta Carollina Lauriano no texto da mostra.

Hariel Revignet
Hariel Revignet

Ao descolonizar as referências do que é clássico, ela também questiona o que é conhecido essencialmente como pintura pela história e mercado dominado pela hegemonia  branca, eurocêntrica, masculina e racional. A artista subverte, assim, o discurso e entendimentos oficiais, propondo uma representação pictórica para além da tela e que deriva de tecnologias ancestrais.

Hariel Revignet
Hariel Revignet

Se vivemos há mais de 500 anos numa necropolítica baseada na disputa pela terra e sabemos que da própria terra podemos resgatar processos de cura, a artista sugere “um chamamento de resgate da terra como direito à vida ” ao usar diversas sementes como elementos fisicamente reais de pinturas-instalações – pense em feijão, semente de girassol,  olho-de-pavão, entre outras.  A terra fértil, que pode gerar novos frutos, deve ser a resposta para uma regeneração. Em outras telas, a artista representa mulheres fazendo oferendas com suas ervas – aqui também aplicadas e não representadas.  Num processo de descolonização ressaltando práticas e crenças ancestrais, Hariel representa o poder energético das plantas para ativar e curar tanto no plano físico quanto no espiritual. 

Otobong Nkanga
Otobong Nkanga

E aí ela se conecta diretamente com a pesquisa da nigeriana Otobong Nkanga, que cria instalações, tapeçarias e desenhos que exploram os pontos de convergência entre matéria, memória, pertencimento e diferenças culturais.Em sua primeira exposição em São Paulo, Nkanga esmiúça a história desconhecida dos materiais e das mudanças de significado que um material pode experienciar de um lugar para o outro com o objetivo de criar uma espécie de arqueologia do presente para o futuro. Em Abacus, por exemplo, ela reúne diversos materiais naturais numa escultura  mecânica que remete à ferramenta de cálculo, combinando pedras, vidro, mármore, cobre e latão com sal, água ou bicarbonato – com objetivo de analisar as possíveis reações químicas. O uso de organismos vivos invisíveis para transformar os aspectos físicos dessa estrutura é, portanto, um dos caminhos tomados pela artista para discutir o controle e a separação das coisas. 

Otobong Nkanga
Otobong Nkanga

O cobre também aparece com frequência nos seus trabalhos mais conhecidos, as tapeçarias. Nkanga apresenta a memória como material. A obra mais interessante da exposição, portanto, é a instalação onde a artista reúne um conjunto de cinco produtos naturais: mica, sabão negro, cássia-imperial,  anil (azul mágico) e alume.  Encontrados no Marrocos, cada um desses produtos tem a particularidade de ser usado de forma diferente na Nigéria. Foram escolhidos por ativarem memórias esquecidas de sua infância em Lagos. Ao lado dos elementos vivos que instigam o toque, há um vídeo da artista explorando os sentidos com cada um deles.  “Móvel, evolucionário e em aberto, o trabalho incorpora uma natureza/ dialética cultural, explorando o movimento de um país para o outro. Os mesmos produtos têm histórias, significados e usos diferentes de acordo com as culturas nas quais estão integrados. Como parte de um conjunto de hábitos? Um coletivo a fortiori? Eles ecoam a minha própria vida e memória. Nutrido pela observação do dia a dia e carregando a marca da autobiografia, esse trabalho investiga papéis e usos diferentes, além de refletir sobre o contexto ao qual pertence, mesmo que esse contexto varie de uma cultura para a outra e esteja, por definição, em um estado permanente de evolução”, revela a artista que ficou conhecida por construir suas imagens a partir do deslocamento, da existência longe de casa, da lembrança, da física e da química, da natureza.

Otobong Nkanga
Otobong Nkanga

 E se a matéria vem carregada da memória essencial para a autoconsciência, ninguém melhor para “fechar” essa trilogia que Sonia Gomes. Uma das estrelas da galeria, Sonia resgata objetos repletos de memória e os ressignifica em poéticas esculturas, propondo novos rearranjos de experiências e lembranças.  Os tecidos biograficamente carregados se entrelaçam de maneira tátil e orgânica, à medida que experimentam novas e vibrantes formas de existência. Ela rasga, amassa, quebra para construir seus próprios corpos e narrativas. Assim como Hariel.

Sonia Gomes
Sonia Gomes