Artista aposta: Biarritzz

Artista aposta: Biarritzz

Escrito em 18/12/2020

A artista usa o humor e a pedagogia do meme para questionar a colonização do pensamento e as devastações de povos, saberes e ecossistemas causadas pela ação/razão do homem branco na busca incansável pelo progresso
Biarritzz
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Talvez por já fazer parte de uma geração pós-internet, hiper-conectada, Biarritzzz parece assimilar os códigos do mundo digital de forma muito natural, se comunicando por meio da paródia e da imitação do mundo mainstream. Gera confusão de valores, seduz com humor e, aparentando ser o que não é, levanta questionamentos sobre assuntos sérios. A começar pelo próprio nome, “a bia que cria hits”, ela joga com palavras, imagens e musicalidade a partir de uma pesquisa da chamada “Pedagogia do Meme”. 

“Tento abordar assuntos complexos por meio de uma linguagem mais fácil de digerir no mundo contemporâneo. Quero dialogar com quem não está alfabetizado na linguagem elitista e acadêmica”, explica. Elementos e imagens  reconhecíveis – como o brega, o pop ou ícones da cultura contemporânea – são, portas de entrada para conversas sobre assuntos que lhe assombram – como as devastações de povos, saberes e ecossistemas causadas pela ação/razão do homem branco na busca incansável pelo progresso.

Biarritzz
Deize Tigrona

Biarritzzz parte, portanto, de uma produção totalmente não hegemônica – do amadorismo, da baixa qualidade, não profissionalismo – e abraça o tosco para conseguir comunicar sem deixar de desafiar o espectador: o que é real ou não, do que deve ser levado a sério ou não? “É quase um processo de antropofagia das minhas próprias referências”, brinca. 

Um exemplo dessa auto-antropofagia é o vídeo “EX@”, feito para o Instituto Moreira Salles durante a pandemia do COVID-19, em parceria com Deize Tigrona e Mun Há . A obra é uma grande paródia da rapper M.I.A. que, há 10 anos, fez um video chamado “XXXO”, fazendo referência ao lugar da paquera e pornografia online – “eu queria fazer um comentário sobre esse mundo heteronormativão, do boyzinho e a garota”, explica.

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“EX@” são as letras/símbolos usados para evitar os artigos de gênero na língua portuguesa.  A jovem artista pernambucana Biarritzz usou a própria linguagem para trazer à tona uma questão cada vez mais urgente dos novos tempos: o gênero ou, no caso, a não necessidade dele. Biarritzz, Tigrona e Mun Há misturam batidas de funk, estética anos 1980 e elementos pop-psicodélicos e repetem o refrão: “ex@ são os artigos de neutralidade da internet, eu não vou ser aquilo que eu não quero ser” . Reforçam que “o macho surtado” perdeu a vez e relembram o assassinato da travesti Dandara Kettley, que foi espancada e executada a tiros no Bom Jardim, bairro de Fortaleza.

Em EU NÃO SOU AFROFUTURISTA,  trabalho virtual que  integrou a exibição Os dias antes da quebra, curada por Diane Lima, Biarritzzz cria um álbum musical e visual que contesta a colonização do próprio pensamento. O afrofuturismo é uma corrente estético-filosófica que explora interseções entre a diáspora africana e a tecnologia. É um movimento que tem ganhado força no exterior combinando elementos da ficção científica com história, fantasia e temáticas não-ocidentais com o objetivo de retratar os dilemas afro diaspóricos e, ainda, interrogar narrativas históricas pautadas pelo racismo global. 

Biarritzz
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Muitos tentam traduzir trabalhos de artistas afro-brasileiros sob esta lente, mas Biarritzzz contesta: “Uma vez fizeram uma matéria com o título ‘O Recife é afrofuturista’ que colocava o meu trabalho e de outros colegas nesta caixa cujo conceito foi criado num contexto completamente diferente do que nós vivemos. Não sou contra o movimento, mas precisamos pensar nos nossos próprios termos. É difícil imaginar novas realidades, ou mesmo entender nossas próprias realidades, quando partimos de conceitos criados num outro lugar – físico, geográfico, social, epistemológico”. Ela coloca, e com razão, que o termo “afro” é muito genérico para algo extremamente complexo e diverso. 

Além de problematizar o termo “afro”, a artista ressalta ainda que não quer falar de “futuro”, pois ainda está ligando os infinitos pontos perdidos entre passado e presente. “Em nenhum momento imagino um futuro, pelo contrário, estou ainda tentando reconectar os laços e os dados do passado para entender esse nosso presente – e me fazer presente”. Deveríamos, então, lutar por um afro-presentismo? 

Biarritzz
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Biarritzzz questiona a própria noção de tempo. “O tempo por aqui nunca foi linear, cronológico. Então, mais uma vez, não estou falando do conceito de tempo ocidental. Se hoje sabemos que para os povos originários tanto de América quanto de África o tempo é circular, espiralar; um futuro como algo que vem depois de um presente, e este vindo depois de um passado, assim sucessivamente, não é uma realidade que condiz com o que eu estou falando. O futuro, o progresso, o desenvolvimentismo, nunca foram dissociados de um evolucionismo, ora filosófico, ora assumidamente eugenista. E toda essa conta sempre significou três coisas: genocídio, ecocídio e epistemicídio”, contesta. O afrofuturismo não pode dar conta de seu trabalho pelo simples fato de que é necessário cunhar novos e próprios conceitos, e não se deitar para movimentos norte-americanos ou europeus em busca de legitimidade. Afinal, não estamos falando de decolonialidade? 

A artista questiona, ainda, a visão construída em torno dos indígenas no Brasil, que são sempre colocados como uma questão do passado.”Eles estão aí e continuam perdendo suas vidas. É preciso entender que essa terra já existia e estes povos não evaporaram. Continuam, inclusive, no nosso sangue! Não quero falar somente da ascendência africana, pois a proximidade com o indígena também é muito forte, especialmente no Norte e Nordeste.  Aqui há uma linha muito tênue sobre o que é uma ascendência africana e o que é uma ascendência indígena”, explica a artista que nasceu em Fortaleza e vive em Recife.

Biarritzz
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Os próprios movimentos identitários como o caso do #blacklivesmatter, na sua opinião,  têm uma formação de pensamento colonizado: o fluxo de ideias viajam, geralmente, da Europa para o Brasil; do Sudeste, para o Norte. Há um imperialismo do pensamento, da academia. E isso precisa ser quebrado de alguma forma – e porque não com humor?   “O humor, o sarcasmo, a ironia são hoje as linguagens mais caras do planeta. As vejo assim a partir de uma compreensão do meme como maior potência comunicacional do mundo contemporâneo. A ironia consegue atingir lugares que o texto dado não pode chegar. A ironia é dúbia, e por si só já parte de dois lugares, geralmente considerados opostos, para transmitir uma mensagem”.

Biarritzz
Biarritzz

Apesar de lidar bem com “algoritimização” do mundo, Biarritzzz tem plena consciência das consequências disso. Quando lançou o filme Pátria, ela colocou, #s que iam contra o que queria dizer para, de alguma forma, driblar os algoritmos que nós mesmos construímos, nossa muralha. “Em algum momento aquilo realmente chegou em outro lugar! E quanto tentamos quebrar essas barreiras, assumimos um risco”, revela. “Eu sei que pessoas que não estão no meu ciclo vão chegar nos trabalhos e vão interpretar de outra forma. Mas a ideia é mesmo provocar, cutucar, furar a bolha, porque até o provocar hoje é difícil”, pontua a artista. “Hoje vejo um esvaziamento poético no que diz respeito a falar de assuntos sérios unicamente por meio de uma linguagem da militância. A linguagem é ferramenta, mas também prisão, e no mundo algorítmico em que vivemos, falar apenas para quem já está habituado com aquele código não é algo que está nas nossas mãos. O que lemos, vimos e aplaudimos é milimetricamente direcionado, controlado e monitorado. O meme é, para mim, o meio que mais fura essa bolha, pois o irônico e cômico conseguem atravessar o que os textos não conseguem.” 

Biarritzz
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